A redução das agências bancárias na Bahia tem transformado silenciosamente a relação da população com o sistema financeiro. Dados do Relatório de Agências Bancárias 2025, elaborado pelo Sindicato dos Bancários da Bahia, mostram que 48 unidades foram fechadas no estado ao longo do último ano, enquanto apenas duas novas agências foram abertas no mesmo período. Atualmente, a Bahia possui 756 agências em funcionamento, número bem menor que o registrado há menos de uma década.
Em Salvador, o impacto foi ainda mais visível. A capital terminou 2025 com 19 agências a menos, concentrando cerca de 39,6% de todos os fechamentos registrados no estado. Entre as instituições financeiras, o Itaú liderou o número de encerramentos na cidade, com nove unidades desativadas. Em seguida aparecem o Santander, com sete, e a Caixa Econômica Federal, com três.
A redução da rede física ocorre em meio à crescente digitalização dos serviços bancários, mas tem provocado consequências diretas para milhares de clientes que ainda dependem do atendimento presencial. Filas maiores nas unidades remanescentes, deslocamentos para bairros ou cidades vizinhas e dificuldade de acesso a operações mais complexas passaram a fazer parte da rotina de muitos baianos.
O problema é ainda mais sensível para idosos, beneficiários de programas sociais, pequenos comerciantes e pessoas com acesso limitado à internet ou a aplicativos bancários.
Segundo o Sindicato dos Bancários da Bahia, o processo de fechamento das agências tem ampliado desigualdades no acesso ao sistema financeiro.
“Os fechamentos de agências têm causado vários prejuízos para a população do interior e, principalmente, para a população de baixa renda que não tem acesso aos serviços bancários”, afirmou Ronaldo Ornelas, diretor da entidade.
Interior – Se na capital os fechamentos provocam superlotação nas unidades restantes, no interior da Bahia a situação pode ser ainda mais grave.
O relatório aponta que 16 municípios perderam a única agência bancária que possuíam, o que obrigou moradores a viajar até cidades vizinhas para realizar operações básicas, como saques, pagamentos ou resolução de pendências bancárias.
Entre as cidades afetadas estão Bonito, Buritirama, Itagimirim, Itatim, Maiquinique, Mairi, Malhada das Pedras, Olindina, Palmeiras, Pedro Alexandre, Potiraguá, Presidente Tancredo Neves, Rio do Pires, Santa Brígida, Uruçuca e Wagner.
Em muitos desses municípios, a população passou a depender apenas de correspondentes bancários instalados em estabelecimentos comerciais, como supermercados ou casas lotéricas. Embora esses pontos ofereçam alguns serviços, como pagamentos de contas ou saques limitados, eles não substituem integralmente o atendimento de uma agência tradicional.
De acordo com estimativas do levantamento sindical, cerca de 756 mil baianos foram afetados pela redução do atendimento presencial, enquanto aproximadamente 279 mil pessoas passaram a viver em cidades sem nenhuma agência bancária.
Demissões e reestruturação do setor são reflexos
A diminuição da rede de atendimento também tem reflexos diretos sobre o mercado de trabalho no setor bancário.
Na Bahia, o número de trabalhadores do setor caiu de 17.969 bancários em 2017 para 17.058 em 2025, segundo dados do sindicato. Apenas no último ano analisado, o saldo foi negativo em 372 postos de trabalho, resultado da diferença entre admissões e desligamentos.
A tendência de redução da rede física não é recente. Entre 2016 e 2025, o número de agências bancárias no estado caiu de 1.095 para 756 unidades, uma redução de 339 agências em menos de dez anos, o equivalente a quase um terço da estrutura existente.
Para o sindicato, o processo evidencia uma estratégia de redução de custos operacionais por parte das instituições financeiras, que ao mesmo tempo mantêm elevados lucros anuais.
Argumentos – As instituições financeiras afirmam que o fechamento de agências acompanha uma mudança estrutural no comportamento dos clientes.
Em nota, o Itaú informou que vem transformando sua estratégia de atendimento, com foco crescente nos canais digitais. Segundo o banco, cerca de 97% das transações de pessoas físicas já ocorrem por aplicativos, internet banking ou outros meios eletrônicos, o que teria reduzido a demanda por atendimento presencial.
Ainda de acordo com o banco, a rede física continuará existindo, mas com um novo formato, voltado principalmente para atendimento consultivo e relacionamento com clientes.
Para entidades de trabalhadores e especialistas em inclusão financeira, no entanto, a digitalização não pode substituir completamente a presença física das instituições bancárias, sobretudo em regiões onde a internet ainda é limitada ou onde parte da população enfrenta dificuldades para utilizar ferramentas digitais.
Fonte Tribuna da Bahia
Por Hieros Vasconcelos
Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia





