Wagner diz não ter “posição” sobre drogas, mas é contra o “liberou geral”
O Senador Jaques Wagner (PT) adotou um tom cauteloso ao falar sobre a legalização das drogas
Tribuna da Bahia, Salvador
Diferentemente do governador da Bahia, Rui Costa (PT), o senador Jaques Wagner (PT) adotou um tom cauteloso ao falar sobre a legalização das drogas. Wagner afirmou que não tem “posição tomada” a respeito do assunto, mas se posicionou contrário a um “liberou geral”. “Eu não tenho uma posição tomada porque são várias opiniões, mas quando se discute isso, o objetivo não é o liberou geral, o objetivo é tentar diminuir o mundo do tráfico e o submundo da droga”, declarou, em entrevista à Tribuna.
O senador sugeriu, entretanto, ser a favor de liberar “controladamente” o uso de drogas leves no país. O controle ocorreria, segundo ele, da mesma forma como acontece com as bebidas alcoólicas. Ainda na entrevista, Wagner rebateu as críticas constantes feitas pelo ex-prefeito soteropolitano ACM Neto (União Brasil). Ambos devem disputar o governo da Bahia na eleição do próximo ano. “Estou muito seguro do quanto a gente evoluiu na organização das polícias em relação aos 16 anos deles. Então, na minha opinião, não vejo legitimidade nem experiência comprovada para ele falar disso”, retrucou.
Wagner admitiu ainda o interesse de ter o MDB na sua aliança ao governo da Bahia, minimizou o fato de os emedebistas terem apoiado o impeachment de Dilma e falou sobre a situação do PP baiano. O PP pode filiar, nos próximos dias, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). “Se você me perguntasse: se isso acontecer, dificulta? Óbvio que é ruim ter alguém, como o atual presidente, filiado ao partido da base”, pontuou.
Tribuna – O senhor tem participado de eventos internacionais e discutido constantemente sobre as mudanças climáticas. Por que o senhor tem se dedicado nesta temática, que entrou até na agenda eleitoral?
Jaques Wagner – Não tem a ver com eleição. Na verdade, tem a ver com uma compreensão de que a questão climática já vinha sendo problematizada e virou agora uma questão emergencial. Por isso, ela se transformou numa agenda obrigatória internacional. Eu acabei de vir de Roma, de uma reunião de uma instituição, que seria como se fosse a ONU dos Parlamentos. E nessa reunião tinha, se eu não me engano, 95 países representados – com senadores, deputados ou com os dois – e a pauta praticamente única era essa, porque se transformou numa questão de sobrevivência do ponto de vista do planeta, das pessoas. Não falo mais (que é uma questão) das futuras gerações, porque já está virando um problema atual, com seca prolongada, incêndio no Pantanal, dilúvio aqui e ali, tempestade. Então, virou uma agenda que não é de esquerda nem de direita, mas do bom senso, de quem tem a cabeça no lugar. A gente já vinha se preocupado com isso. O que teve, de novo, é que o PT decidiu – óbvio que eu defendi essa tese – escolher a Comissão de Meio Ambiente (do Senado), e estou na presidência. É evidente, como presidente da comissão, sou chamado, porque no Brasil, nós somos um ponto fundamental do equilíbrio da questão climática ambiental. E a solidariedade climática é obrigatória porque o que acontece em qualquer planeta reflete no planeta como um todo.
Tribuna – Como o senhor avalia a postura do governo federal nesta questão climática?
Jaques Wagner – A postura do governo federal é a pior possível. Então, isso impressiona mal no mundo inteiro. A imagem do Brasil realmente está no chão. A gente, inclusive, sentiu isso na reunião em Roma, uma certa frieza dos membros participantes em relação ao Brasil. Ele faz coisas ruins, e piora com a fala dele. Tudo que ele faz ou quase tudo que ele faz, e ele consegue piorar. Ele mesmo se vende mal ou se vende pior ainda do que já é. Então, acaba que a busca por um diálogo em outro nível é grande. Daí o porquê de um certo protagonismo aumentado nosso. Também estou trabalhando, dentro da Comissão de Meio Ambiente, junto com a CEPAL, que é um organismo da ONU, no que batizamos de Observatório Legislativo da Transição Justa. Transição Justa é um termo que estamos usando para dizer que a transição no sentido um de desenvolvimento mais equilibrado, sustentável, passa pela questão da justiça social. Então, é isso. Não se trata de esquerda ou direita, mas de uma questão de bom senso para qualquer pessoa. Por isso, tenho me dedicado.
Tribuna – Falta ainda um ano e dois meses para o fim da gestão de Rui Costa, mas qual será o maior legado do governador, na sua avaliação?
Jaques Wagner – Eu acho que são muitos na minha opinião. Muitos porque está deixando as policlínicas, as estradas, agora está fazendo investimento pesado na área de Educação, que realmente a gente precisa avançar bastante. Estamos melhorando toda infraestrutura das escolas. Eu acho que ele vai deixar um legado de uma gestão muito acurada até porque ele foi governador no período ruim. Ele pegou crise econômica, fiscal, e governos, depois do impeachment da Dilma, totalmente contrários como o atual, por exemplo, que não libera empréstimo, não paga convênios já executados pelo governo estadual. Mas é só ver a popularidade dele que é muito alta. O povo reconhece nele uma pessoa altamente trabalhadora.
Tribuna – Se a filiação de Bolsonaro ao PP se concretizar, qual a chance de o PP indicar alguém para sua chapa?
Jaques Wagner – Olha, eu sinceramente prefiro não trabalhar com futurologia, porque não quero ficar adiantando o que eventualmente não vai acontecer. Eu estive, junto com o governador Rui Costa, uma conversa com João Leão (vice-governador e presidente do PP na Bahia) essa semana ou semana passada, e com o secretário-geral do partido que é o Jabes Ribeiro. Leão continua fazendo a aposta de que essa filiação não acontecerá. Por isso que eu digo que é uma coisa que não está (definida)… Essa vai ser uma decisão interna do partido (do PP). Eu sei que não há unidade e unanimidade nesta questão. A Bahia resiste, Alagoas, Pernambuco, até onde eu sei, São Paulo, Rio Grande do Sul. Agora, o partido tem uma direção nacional e pode decidir pela filiação, e dar autonomia nos estados para que tenham decisões que correspondem a sua regionalidade, seu interesse. Se você me perguntasse: se isso acontecer, dificulta? Óbvio que é ruim ter alguém, como o atual presidente, filiado a um partido da base. Agora, é óbvio que não vou fingir que não estou enxergando. Eu sei que tem muitos parlamentares, de diversos partidos, que são base de sustentação nossa aqui e votam o tempo todo com o presidente da República, nas matérias que estão lá. Acho que tem que esperar essa decisão (da filiação), por isso não quero ficar me antecipando. Óbvio que eu prefiro não se filie. Mas o meu gostar não pesa porque eu não tenho mando de campo aí. Eu prefiro ficar com a última conversa que eu tive com o presidente do partido, João Leão, e ouvi de outros parlamentares que não têm interesse nessa filiação. Tem que aguardar para ver como essa coisa vai evoluir, mas vai depender muito da postura, da posição do PP baiano.
Tribuna – Como o senhor avalia as críticas de ACM Neto à área de segurança pública nos governos do PT?
Jaques Wagner – A segurança pública é um problema em todos os estados do Brasil. Não conheço ninguém que tenha encontrado uma fórmula mágica para resolver isso. Eu acho estranho ele falar isso porque o grupo político dele, que governou a Bahia pelo menos uns 16 anos antes de eu virar governador, entre (19)90 e 2006… Não me consta que a estrutura da Polícia Militar, da Polícia Civil e da Polícia Técnica fosse melhor. Isso é só perguntar aos policiais, do ponto de vista salarial até a estrutura. Os casos de policiais empurrando carros por falta de gasolina eram comuns. Pergunta aos policiais se, cada um, tinha colete a prova de balas, se tinha arma. Nós estamos montando toda uma estrutura com tecnologia para reconhecimento facial, porque não adianta ficar querendo brigar com tráfico de drogas, que acabou virando uma empresa do mal e é uma superestrutura rodando muito dinheiro. Acabamos de fazer uma licitação para reconhecimento facial, que eu não tenho dúvida de que contribuirá muito para diminuir os crimes. A Polícia Técnica e a Polícia Civil estão muito mais estruturadas do que estavam. Então, esse é um lugar-comum que todo mundo vai falar nessa eleição, porque todo mundo que está na oposição, e lugar de oposição é fácil porque o microfone aceita qualquer palavra. Agora, as pessoas, quando falam deveriam mostrar do que sabem ou já fizeram. Eu não reconheço no grupo político de lá, nada. Estou muito seguro do quanto a gente evoluiu na organização das polícias em relação aos 16 anos dele. Então, na minha opinião, não vejo legitimidade nem experiência comprovada para ele falar disso.
Tribuna – O senhor defende a legalização das drogas, como o governador Rui Costa tem feito?
Jaques Wagner – Essa não é uma discussão difícil de responder “sim” ou “não”, porque acaba reduzindo demais e a interpretação acaba sendo usada como se quiser. Eu acho que, como existem em outros países do mundo, controladamente o uso das chamadas drogas leves… Não é o liberou geral, por isso é difícil responder. Fica parecendo que a gente está achando que pode ser o caminho. A tentativa, quando se faz isso (legalizar as drogas), é diminuir o volume de tráfico, como a droga chamada álcool é legalizada e já foi proibida. É só lembrar dos tempos de Al Capone. Resolveram legalizar para cobrar imposto e não alimentar o submundo do crime. Não preciso explicar quantas pessoas morrem de batida de carro ou quantos dependentes alcoólicos nós temos. No entanto, (bebida alcoólica) está em qualquer prateleira, com regras e com controle do Estado. Acho que as pessoas precisam entender que quando se discute esse tema…E eu ainda não tenho uma posição tomada. Eu não tenho uma posição tomada porque são várias opiniões, mas quando se discute isso, o objetivo não é o liberou geral, o objetivo é tentar diminuir o mundo do tráfico e o submundo da droga. É isso.
Tribuna – O PT baiano retomou o diálogo com MDB para ter uma aliança com o partido em 2022?
Jaques Wagner – Nós conversamos com o MDB desde a eleição de 18, mas não foi uma conversa para se juntar. Foi uma conversa para respeitar vários prefeitos, que queriam nos acompanhar, mas tinham compromisso com deputado federal do MDB. E eu, no meu estilo, e também o governador, não vou perseguir ninguém e ter prazer em esmagar as pessoas. Eu não trabalho assim. Eu trabalho na construção de hegemonia, e não na destruição de adversários. Essa linha da destruição é a do outro lado, dos 16 anos antes da gente. (No grupo de ACM Neto é assim): “para meus amigos, tudo, para os adversários, nem a lei”. É assim que funcionava. É isso que representa a candidatura do ex-prefeito, o passado. Na verdade, uma coisa é a idade – novo ou velho -, outra coisa é ser moderno e ultrapassado ou passado. Eu acho que quem modernizou a Bahia foi o nosso grupo. Por exemplo, é só olhar: qual o partido que cresce ao lado dele (ACM Neto)? Nenhum. No nosso grupo, todo mundo cresce. Por isso o grupo se mantém. Então, não tivemos nenhuma postura de esmagar quem já estava bastante debilitado, que era o MDB, em 2018. Isso, portanto, criou relação que nós tivemos. Agora, a gente conversa, mas não tem nada decidido. Eles estão na base do atual prefeito, ou seja, do grupo de lá. Tenho que esperar a evolução. Mas, se você quer saber se eu tenho interesse, claro que eu tenho. Eu acho que ninguém ganha na eleição criando adversário, inimigo, eu acho que ganha na política trazendo aliados, sem perder a sua coluna vertebral.
Tribuna – Agora, o MDB apoio o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, do PT. Isso ficou no passado?
Jaques Wagner – Repare, eu tenho orgulho de dizer que, no impeachment de Dilma, a bancada que nos apoiava – toda ela, os deputados e os três senadores na época Lídice, Pinheiro e Otto – foi a única que votou contra o impeachment. Se for ter que escolher quem votou e quem não votou contra o impeachment, bom, vai sobrar pouco, né? Porque como o impeachment ganhou, significa que ampla maioria votou (a favor). Óbvio que tenho críticas ao MDB pela postura que teve, como teve crítica ao PSDB, ao DEM, porque todos trabalharam. A crise da democracia que nós estamos vivendo começou lá, e hoje ninguém bate no peito para fazer mea-culpa. No fundo, a bagunça institucional na democracia brasileira começou com o impeachment, que foi uma farsa, que foi um impeachment sem causa, sem crime, sem nada. Pedem tanto autocrítica para gente (o PT), reconheçam que foi um erro gravíssimo brincar com democracia e com voto popular com o impeachment de Dilma. Aproveitaram o momento ruim do governo, de baixa popularidade para afrontar a democracia. Estamos pagando o preço agora, com um presidente que não tem o menor respeito pela democracia.
Tribuna – O senhor torce pela candidatura do ministro da Cidadania, João Roma, ao governo da Bahia para tirar votos de ACM Neto?
Jaques Wagner – Não, a conta não é essa. A realidade é essa. Eu sempre gosto de dizer que eu monto o meu time. Quem monta o time adversário, é o adversário. Evidentemente que, cada situação pode favorecer ou prejudicar a minha candidatura. Mas não é a minha conta. O problema é que o ex-prefeito (ACM Neto), como é de oposição ao presidente Lula, está sem caminho. Fica o tempo todo dizendo “não vamos nacionalizar”. Não é ele quem nacionaliza. O povo nacionaliza a campanha quando ela é presidencial. Não existe. O povo começa escolhendo o seu presidente e vai escolhendo o restante a partir daí. Como ele não tem, até agora, o presidente da República ou tem e não revela, porque o partido dele é um dos que mais votam (a favor) em todas as demandas do governo federal. Ele diz que não é (apoiador de Bolsonaro), mas veja as votações do DEM e vai ver que é um dos partidos que mais votam com ele (Bolsonaro). Mas ele tenta o tempo todo esconder isso. Uma candidatura que assuma a candidatura do atual presidente, com certeza, tira votos de lá (de ACM Neto), porque era gente de lá. A eleição nacional vai polarizar. A terceira via até agora não nasce nem sei se vai nascer. Se essa polarização for em nível nacional (entre Lula e Bolsonaro), a torcida organizada do atual presidente é possível que acompanhe a indicação dele. Então, há uma possibilidade de que o nome do atual presidente possa ter um desempenho superior ao desempenho do ex-prefeito (ACM Neto). Então, não é que (a candidatura de Roma) me favorece, mas reconheço que cria dificuldades para ele (ACM Neto).
Tribuna – Como o senhor viu a fusão entre DEM e PSL para criar o União Brasil?
Jaques Wagner – Do ponto de vista de projeção da política, eu acho ótimo, porque sou a favor de que se diminua muito o número de partidos no Brasil, que é incompatível com a democracia. Não tem nenhuma democracia madura no mundo que tenha 35 partidos. Então, eu vejo a fusão como também o fim da coligação como elementos positivos para reposicionar a política brasileira. Óbvio que os dois partidos (DEM e PSL) estavam em dificuldades, reduzindo os seus quadros. É notório que estava minguando o DEM, e o próprio PSL com o racha com o atual presidente. Muita gente foi eleita lá na cola do presidente. Quando houve a briga, muita gente está se preparando para sair. Para os dois partidos, foi uma salvação. O DEM, mais uma vez, muda de nome, que é um hábito deles por conta do desgaste.
Tribuna – O senhor acha que a possibilidade de impeachment de Bolsonaro morreu?
Jaques Wagner – Morrer, não morreu. Mas evidentemente que quanto mais se aproxima da eleição, a motivação acaba ficando menor. Estamos a um ano da eleição. Um processo de impeachment não demora menos do que três, quatro meses. Então, de uma certa forma, as pessoas acham que não tem mais tempo útil para fazer. Mas não acho que está fora não. A CPI da Covid exibiu buracos maiores ainda do que o povo brasileiro já conhecia. Ficou caracterizado o crime de responsabilidade dele, a corrupção. Então, na minha opinião, tem motivo de sobra para o impeachment dele. Acho que ele (Bolsonaro) já cometeu crime de responsabilidade, crime contra a vida, crime contra o meio ambiente.
Fonte Tribuna da Bahia





