Feira de Santana no centro de um dilema político que pode redefinir a Bahia
Qual a real vantagem de apoiar — ou pior, ser vice — de ACM Neto?
Essa pergunta tem ecoado com força crescente entre os feirenses e, até agora, segue sem resposta convincente.
ACM Neto sempre foi identificado como um político deslumbrado pela capital. Salvador é seu centro de gravidade, seu palco, seu projeto. E a dúvida que se impõe é direta e incômoda: para que serve Feira de Santana nesse projeto? Seria apenas uma muleta eleitoral? Um reservatório de votos para sustentar ambições que nunca se traduzem em desenvolvimento concreto para o interior?
Nos últimos dias, o debate sobre as pré-candidaturas ao Governo da Bahia, ao Senado e até à Presidência da República reacendeu uma velha ferida na política baiana. No centro dela está o nome do prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo, hoje disputado por dois campos opostos: a oposição liderada por ACM Neto e a situação, representada pelo governador Jerônimo Rodrigues (PT).
O passado que insiste em cobrar a conta
Em 2018, José Ronaldo tomou uma decisão que mudaria radicalmente sua trajetória política. Abriu mão de tudo o que havia construído em Feira de Santana — seu verdadeiro capital político — para disputar o governo do estado em uma candidatura fadada ao desgaste. Enfrentou Rui Costa, então um dos governadores mais bem avaliados do Brasil, e saiu derrotado.
A leitura nos bastidores sempre foi a mesma: Ronaldo entrou naquela disputa para salvar ACM Neto, preservando o então prefeito de Salvador de uma derrota direta nas urnas. O resultado foi amargo. Ronaldo perdeu a eleição, voltou para Feira de Santana carregando o peso da derrota e passou quatro anos fora do poder, atuando nos bastidores e alimentando a expectativa de que seria recompensado pelo gesto de lealdade.
Em 2022, a fatura nunca foi paga.
Convencido de que a eleição estava ganha, ACM Neto montou uma chapa baseada em jovens quadros, um verdadeiro time de “paquitos”, descartando lideranças experientes e, entre elas, José Ronaldo. Nem vaga ao Senado, nem vice-governadoria. Nada.
A decisão quase custou a Ronaldo sua credibilidade política. Ele teve que recomeçar do zero. Voltou à base, enfrentou críticas, resistências e, em 2024, venceu uma das eleições mais difíceis de sua carreira, sendo eleito prefeito de Feira de Santana pela quinta vez.
Quem estendeu a mão quando mais precisou
No início do novo governo, Ronaldo encontrou uma prefeitura fragilizada financeiramente, com problemas estruturais graves e pouca margem de manobra. Foi nesse momento que surgiu o apoio decisivo do governador Jerônimo Rodrigues.
Sem pirotecnia, sem discursos vazios, o governo do estado ofereceu cooperação, recursos e diálogo. Um “ombro amigo”, como dizem aliados. No segundo ano de gestão, com as contas organizadas e o orçamento em dia, Feira de Santana voltou a respirar.
E agora, José Ronaldo se vê diante de um verdadeiro baralho político.
Voltar ao passado ou apostar no futuro?
De um lado, ACM Neto — o político que o descartou duas vezes, que enxerga o interior como instrumento e que jamais demonstrou identidade concreta com Feira de Santana. Do outro, Jerônimo Rodrigues — um governador de perfil interiorano, que conhece a realidade fora da capital e que esteve presente quando o município mais precisou.
A pergunta que ecoa nas ruas é simples e devastadora:
Qual a vantagem de ser vice de ACM Neto?
Eleito governador, Neto traria desenvolvimento real para Feira de Santana? Onde estão os exemplos dessa preocupação com o interior? Qual política estruturante ele propõe para a maior cidade do interior baiano?
Ser vice de ACM Neto significaria aceitar novamente o papel de coadjuvante, arriscando o capital político de um grupo inteiro para sustentar um projeto que, historicamente, nunca priorizou Feira.
O jogo virou
Hoje, o cenário é outro. José Ronaldo não é mais o homem que pede espaço — é o homem que decide o rumo do jogo. Ele pode ser a peça que garante a competitividade de ACM Neto ou, no mínimo, evite um vexame eleitoral nas urnas.
Por outro lado, Ronaldo também tem diante de si a chance histórica de se consolidar como um dos grandes líderes políticos da Bahia. Pode contribuir decisivamente para a derrota de quem o menosprezou, abrir espaço para novas lideranças e redefinir o equilíbrio de forças no estado.
A ironia da política é cruel: apoiar ACM Neto agora seria, paradoxalmente, oferecer a ele a chance de recomeçar do zero — exatamente o que José Ronaldo foi obrigado a fazer após 2022.
A diferença é que, desta vez, a escolha está nas mãos de quem aprendeu, na dor, o valor do poder e da lealdade verdadeira.
E Feira de Santana observa. Atenta. Cansada de ser figurante. Pronta para cobrar coerência, gratidão e, sobretudo, respeito.





