A liberação do conteúdo integral do celular do empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, ampliou a guerra interna no STF (Supremo Tribunal Federal) e tem servido de munição aos grupos opostos na Corte.
Desde que a PF (Polícia Federal) entregou cópias dos dados a gabinetes de ministros, informações com citações a integrantes do Supremo passaram a vir a público, aumentando o desgaste no tribunal.
O movimento é visto como uma estratégia para mostrar que os contatos e as relações de Vorcaro não se limitavam ao ministro Alexandre de Moraes e alcançavam outros integrantes da Corte.
Até agora, solicitaram acesso aos dados do iPhone 17 do ex-banqueiro os ministros Cristiano Zanin, Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, André Mendonça, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques.
A avaliação entre interlocutores do STF é que as mensagens continuarão sendo exploradas em meio à crise envolvendo Moraes.
O ministro se tornou o foco da crise após um relatório da PF identificar mensagens enviadas pelo ex-banqueiro a um número de telefone atribuído a ele.
Além disso, a investigação menciona o contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do magistrado.
Segundo a PF, uma minuta do documento teria sido editada no gabinete de Moraes no STF.
Porém, desde que a íntegra das informações do aparelho começou a chegar aos gabinetes, na segunda-feira (14), foram reveladas referências aos ministros Luiz Fux, Kassio Nunes Marques e Gilmar Mendes.
Já era conhecida uma menção a André Mendonça, relator do caso Master e responsável pela retirada do sigilo do relatório da PF sobre Moraes.
As citações a Fux e Nunes Marques vieram à tona durante a sessão de terça-feira (15), convocada para decidir se seria aberto um inquérito contra Moraes. Foram mencionadas conversas de Vorcaro com Rodrigo Fux, filho de Luiz Fux, e referências a Nunes Marques.
Durante o julgamento, Mendonça afirmou que estava tomando conhecimento naquele momento de parte das referências aos colegas, porque a cópia dos dados enviada ao seu gabinete permanecia lacrada.
As novas informações ajudaram a desviar o foco da sessão, inicialmente convocada para analisar a conduta de Moraes.
As citações a outros integrantes da Corte passaram a ser usadas como argumento de que o caso não se restringia ao ministro.
Durante o debate, o ministro Flávio Dino, autor do pedido de vista, fez referências aos ministros André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux, que também seriam citados nas conversas de Vorcaro.
“As mensagens do ministro Fux, as mensagens do ministro Kassio, as mensagens relativas ao ministro André. Nós vamos parar onde?”, argumentou Dino.
No dia seguinte à sessão, Mendonça e Fux pediram acesso à íntegra dos dados. A PF entregou o conteúdo aos dois ministros na quinta-feira (17). Nunes Marques também solicitou acesso ao material.
As informações divulgadas nos dias seguintes aumentaram a pressão sobre integrantes da Corte. Mensagens recuperadas pela PF indicam que Vorcaro teria bancado, no Carnaval de 2025, a hospedagem de um ministro identificado como “KN” em uma mansão no Rio de Janeiro.
Investigadores apontaram que as iniciais poderiam ser uma referência a Nunes Marques. O gabinete do ministro afirmou que ele nunca trocou mensagens com Vorcaro nem pediu qualquer benefício ao ex-banqueiro.
Também veio a público que Vorcaro se reuniu com Gilmar Mendes em abril de 2024, no gabinete do ministro no STF. A audiência, confirmada por Gilmar, contou com a presença de advogados do Banco Master e tratou de uma causa relacionada ao setor sucroalcooleiro.
Gilmar afirmou que o encontro ocorreu em ambiente institucional e destacou que votou contra os interesses ligados ao Master nos processos sobre o tema.
Guerra de ofícios
A disputa pelo acesso ao celular de Vorcaro começou antes da sessão com uma guerra de ofícios entre ministros. O primeiro pedido para obter a íntegra do material foi feito por Cristiano Zanin a André Mendonça, relator do caso Master, no dia 11.
Mendonça respondeu que os dados estavam com a PF e que a cópia enviada ao seu gabinete permanecia lacrada.
O ministro afirmou ainda que os elementos necessários ao julgamento já estavam disponíveis e que a liberação de todo o conteúdo serviria apenas para “tumultuar” a sessão.
Zanin recorreu ao presidente do STF, Edson Fachin. Além dele, Gilmar Mendes e o próprio Alexandre de Moraes também solicitaram acesso ao celular. O argumento era que a análise do material era essencial para o julgamento sobre uma eventual investigação contra Moraes.
Após a PF informar que poderia fornecer cópias dos dados do celular aos ministros sem comprometer a cadeia de custódia, Fachin determinou que a corporação disponibilizasse o material.
Fonte: CNN




