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São João da Exclusão: Artistas de Feira de Santana denunciam humilhação e barreiras em São José

5 Min Leitura

Festa que deveria celebrar a cultura baiana vira palco de desprezo aos que constroem a arte local; secretaria é alvo de duras críticas

Feira de Santana — Distrito Maria Quitéria/ São José

Enquanto multidões cantavam, dançavam e vibravam ao som dos forrós na festa de São João, uma história de dor, frustração e exclusão se desenrolava logo ali, nos fundos do palco. A festa, que leva o nome da tradição, ficou marcada para os artistas da terra como o “São João da Exclusão”: portões fechados, ordens rigorosas de acesso proibido e humilhação pública, justamente da parte da secretaria que tem como missão legal e moral defender, valorizar e fortalecer quem faz a cultura de Feira de Santana acontecer.

O ponto alto da revolta aconteceu na presença de um dos maiores nomes da música nordestina: Alceu Valença. Por todo o Brasil, a presença de artistas nacionais é também momento de encontro — troca de experiências, fotos, cumprimentos e reconhecimento entre quem vive da arte. Aqui, porém, a regra foi outra: aos artistas locais, nem mesmo o direito de se aproximar foi concedido.

Quando Alceu Valença chegou ao espaço, os músicos, cantores e produtores feirenses, que esperavam apenas um instante para registrar um momento, cumprimentar o ídolo e compartilhar a alegria da festa, foram barrados de acesso à área reservada aos fundos do palco — o chamado “canarim”, passagem comum e permitida em todas as outras cidades. Sem explicações, sem justificativas, apenas barreiras e silêncio.

Mas o episódio que mais marcou pela crueldade veio logo depois: um grupo reconheceu a presença de um integrante da própria pasta da Cultura, e imediatamente acenou, esperando que a autoridade corrigisse o erro e garantisse o respeito devido. A resposta foi dura, pública e humilhante: o secretário, identificado no local, apenas virou o rosto, negou com um gesto bruto do dedo e se recusou a intervir — mesmo quando reconheceu um dos artistas mais respeitados e antigos da cena feirense.

“Foi uma humilhação que não desejo a ninguém. Fiquei ali, esperando que ele visse, que entendesse, que como artista da terra eu tinha direito ao menos de cumprimentar. Mas ele só apontou o dedo, negou e seguiu. Me senti um ninguém. Queria só uma foto, um aperto de mão. Nada mais. Mas nem isso foi permitido”, contou um dos envolvidos, que preferiu se manter em sigilo por medo de represálias.

Política, não cultura, foi a convidada de honra

Relatos que chegaram com força à redação do Rota da Informação confirmam um contraste gritante: enquanto quem faz a cultura de Feira era mantido do lado de fora, o ambiente reservado estava cheio — mas não de arte. Políticos, aliados e pessoas sem vínculo com a produção cultural circulavam livremente nos camarins, conversavam, se fotografavam e ocupavam espaços negados aos próprios artistas da terra.

Para os denunciantes, a cena revela uma inversão perversa: a festa junina é organizada pela Prefeitura, paga com dinheiro público, mas os artistas que constroem a identidade da cidade são tratados como intrusos.

“O artista de fora vem, recebe cachês altos, toca e vai embora — e muitas vezes nem sabe quem faz a música aqui. O papel do poder público seria justamente abrir essa porta, apresentar, integrar. Aqui, ao contrário: quem fecha a porta é a própria secretaria. É como se a cultura da terra fosse um obstáculo, não uma riqueza”, criticou outro músico que acompanhou tudo de perto.

Exigência: Cultura precisa de quem vive e respeita a cultura

O caso reacende uma pergunta central na política cultural feirense: quem realmente representa a cultura de Feira de Santana?

Para os artistas, a resposta é clara: a pasta responsável não pode ser comandada por quem só vê a festa como cenário político. É preciso um secretário que conheça, viva, respeite e valorize cada pessoa que, com suor, voz e instrumento, mantém viva a tradição.

No distrito Maria Quitéria/São José, na noite de segunda-feira, a mensagem que ficou gravada não foi apenas a da alegria da festa: foi a de que, na prática, a cultura da terra ainda é, infelizmente, a última convidada a ser recebida — e a primeira a ser deixada do lado de fora.

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